Nota: Ricardo e Mariana são nomes fictícios. A situação foi construída para representar problemas reais e recorrentes que encontramos na gestão das empresas.
Às 16h42, Mariana recebeu a ligação que esperava havia quase três meses. O cliente estava disposto a fechar uma proposta de R$ 480 mil, mas queria uma última condição: 4% de desconto e a confirmação até as 17h. Ela era a gerente comercial, conhecia a negociação desde o início, sabia o custo envolvido e tinha convicção de que, mesmo com a redução, aquele ainda era um bom negócio.
Só havia um problema: Mariana podia conduzir uma negociação de quase meio milhão de reais, mas não tinha autoridade para conceder 4% de desconto. A decisão precisava passar por Ricardo.
Ricardo era o diretor da empresa e, naquele momento, estava embarcando para São Paulo. Mariana ligou. Não atendeu. Mandou WhatsApp. Ligou novamente. Pediu para a assistente tentar contato. O relógio continuou andando.
Às 17h03 chegou a resposta: “Pode fechar.”
Três minutos. Na manhã seguinte, o cliente informou que havia confirmado a contratação com outro fornecedor.
Na reunião comercial, Ricardo quis entender como uma oportunidade daquele tamanho havia sido perdida depois de tanto tempo de trabalho. Mariana abriu a conversa no celular, colocou o aparelho sobre a mesa e respondeu: “Eu tinha responsabilidade por R$ 480 mil, Ricardo. Só não tinha autoridade para decidir 4%.”
O silêncio daquela sala explica um problema que encontro com frequência em empresas que cresceram: elas aumentaram o faturamento, contrataram gestores, criaram departamentos e distribuíram responsabilidades, mas mantiveram as decisões concentradas praticamente no mesmo lugar de quando eram pequenas.
O problema não é delegar. É querer delegar responsabilidade sem entregar autoridade.
No caso de Mariana, os 4% representavam R$ 19.200. A discussão não é se ela deveria ou não conceder o desconto. Talvez 4% fosse demais. Talvez 2% fosse o limite correto. Talvez a empresa não devesse conceder desconto algum. O problema é que ninguém havia definido isso antes das 16h42.
Mariana tinha uma meta comercial, respondia pelo cliente e seria cobrada se a venda fosse perdida. Porém, no momento em que precisava tomar uma decisão, descobriu que sua responsabilidade era maior que sua autoridade.
Uma pesquisa de 2026 acompanhou 186 empreendedores e 47 cofundadores e encontrou uma relação clara: empresários tendem a delegar mais quando percebem seus funcionários como capazes e confiáveis; quanto maior a percepção de risco, menor a disposição para entregar autoridade [3]. Parece lógico. O problema começa quando a resposta ao risco é centralizar tudo.
Existe uma diferença entre controle e centralização
Um dos experimentos mais conhecidos sobre gestão foi realizado em empresas têxteis indianas. Após a implantação de melhores práticas gerenciais, a produtividade média aumentou 11%. Mas existe um detalhe nesse estudo que me interessa ainda mais: os proprietários também passaram a delegar mais decisões aos gestores intermediários [1].
Os empresários não delegaram porque decidiram confiar cegamente nas pessoas. Delegaram porque passaram a ter melhores informações e controles. Esse é o ponto que muitas empresas invertem: o dono pensa que precisa decidir tudo para manter o controle, quando uma gestão melhor permite justamente o contrário — controlar mais sem precisar decidir tudo.
O vendedor pode ter uma faixa de desconto. O comprador pode ter uma alçada financeira. O gerente pode contratar dentro de uma estrutura previamente aprovada. O financeiro pode executar despesas previstas sem transformar cada pagamento em uma reunião extraordinária.
Um estudo publicado no American Economic Reviewtrata a delegação gerencial como essencial para o crescimento das empresas. A lógica é simples: o tempo do empreendedor é limitado. Conforme a empresa aumenta, chega um momento em que o crescimento passa a depender da capacidade de outras pessoas assumirem decisões [2].
Faça uma conta dentro da sua empresa
Durante uma semana, registre quantas vezes alguém precisa interromper outra pessoa para pedir uma aprovação. Depois olhe para essa lista. Quantas decisões realmente precisavam chegar à diretoria? Quantas poderiam ter sido tomadas por um gerente? Quantas já foram decididas dezenas de vezes exatamente da mesma forma?
Se toda compra passa pelo diretor, se cada desconto chega ao dono, se qualquer contratação precisa subir até a presidência e se o gerente precisa perguntar antes de resolver situações comuns da própria área, talvez a empresa não tenha um problema de pessoas. Talvez tenha um problema de desenho da gestão.
E existe outro efeito que quase nunca entra nessa conta. Quando alguém aprende que decidir pode gerar repreensão, mas pedir autorização transfere o risco para cima, a escolha racional passa a ser perguntar. Depois de algum tempo, o mesmo empresário que concentrou as decisões começa a reclamar: “Ninguém aqui tem iniciativa.”
O que teria evitado a perda dos R$ 480 mil?
Não seria dizer para Mariana: “Da próxima vez, resolva sozinha”. Isso apenas troca centralização por improviso.
A solução seria definir antes da negociação quais decisões pertenciam a Mariana: qual margem deveria ser preservada, até quanto ela poderia negociar, quais condições exigiriam aprovação e em quais situações o assunto obrigatoriamente subiria para Ricardo.
Isso é alçada de decisão. Pode estar numa política comercial, numa matriz de responsabilidades ou no próprio desenho do processo. O nome da ferramenta é secundário. O que não pode faltar é clareza sobre quem decide, o quê, até onde e com quais critérios.
Responsabilidade sem autoridade não cria líderes. Cria mensageiros.
A solução não é deixar todo mundo decidir tudo. É parar de obrigar pessoas competentes a pedir autorização para aquilo que já deveria fazer parte do cargo delas.
Comece pelas decisões que mais se repetem. Defina limites, critérios e indicadores. Dê autonomia dentro desses limites e acompanhe o resultado. Se algo der errado, revise o critério antes de simplesmente tomar a decisão de volta.
Ricardo não precisava estar disponível às 16h42. Ele precisava ter decidido, muito antes daquele dia, até onde Mariana poderia decidir sem ele.
Do Papel à Rotina
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Assinar no LinkedInReferências
[1] BLOOM, Nicholas; EIFERT, Benn; MAHAJAN, Aprajit; MCKENZIE, David; ROBERTS, John. Does Management Matter? Evidence from India. Quarterly Journal of Economics, 2013. Acessar fonte
[2] AKCIGIT, Ufuk; ALP, Harun; PETERS, Michael. Lack of Selection and Limits to Delegation: Firm Dynamics in Developing Countries. American Economic Review, 2021. Acessar fonte
[3] Empowering growth: delegating decision-making authority during the evolution of new businesses. International Journal of Entrepreneurial Behavior & Research, 2026. Acessar fonte
